Segunda-feira, 26 de Março de 2012

Pele e Osso

Autor: Lori Gottlieb
Ano: 2001

Em finais da década de 1970, a febre das dietas atinge em força a sociedade de Beverly Hills. Na altura com 11 anos, Lori Gottlieb começou a absorver todo aquele ambiente, todos os conselhos que ouvia das amigas e das mães das amigas, tudo o que lia nas revistas, tudo o que via nos anúncios publicitários, etc. Lori questiona, então, aquilo com que se depara e embarca, de um modo determinado e algo teimoso, numa dieta que por muito pouco não teve um final fatal. 
Lori Gottlieb conta no epílogo desta obra a origem da mesma. A base para este relato são os seus próprios diários de adolescente, que encontrou quando procurava alguns documentos na casa dos pais. É um relato sobre aquele que é considerado um dos flagelos na sociedade moderna: a anorexia nervosa. No entanto, este não é um tratado cientifico sobre a doença, mas antes o ponto de vista do doente. Na adolescência de Lori, a pressão social e o culto de uma beleza irreal que ainda hoje continua a existir quase fez dela mais uma vítima. É angustiante ler que uma menina de 11 anos, em algum ponto da sua vida, achou que era saudável viver com um peso abaixo dos 27kg… No entanto, ouve algo no discurso da jovem Lori que fez com que eu sentisse uma espécie de ligação com a personagem. A sensação de ser “única”, uma “não-alinhada”, alguém que se recusa a ser mais um carneirinho no rebanho, alguém que não vê o propósito de fazer o que toda a gente faz exactamente por esse motivo. Este é um livro que serve um pouco para levantar o alerta, deixar as questões no ar em vez de dar as respostas a essas mesmas questões. Antes de terminar, deixo uma citação da parte final da obra: “A linha entre a anorexia e a normalidade pode parecer tão ténue que, por vezes, é difícil dizer se a anorexia nervosa é uma doença em si, ou se é, até certo ponto, uma consequência de uma doença generalizada da sociedade.” 

Excerto:
“Assim, peguei no lápis e desenhei a rapariga que quero ser. Era alta e magra, mas tinha a minha cara e os meus cabelos. Quando o Dr. Gold olhou para o desenho, não fez qualquer movimento com a cabeça. «Isto é uma “pele e osso”», observou ele, como se eu não tivesse percebido o que ele me mandara fazer. «Tenta fazer um desenho realista de como gostarias de ser. Não te preocupes se não és boa a Desenho.» Deve ter pensado que eu era péssima a Desenho. Tentei explicar-lhe que aquele desenho era exactamente aquilo que eu queria ser, mas o Dr. Gold disse que não viveria se ficasse como no desenho. «Bem, se não gosta, não me peça que faça desenhos de como é que eu quero ser», disse eu; depois pedi-lhe para esquecer tudo. Que idiota!”

Quinta-feira, 22 de Março de 2012

Astérix - a Rosa e o Gládio


Autor: René Goscinny & Albert Uderzo
Ano: 1991
Classificação: 4/5

Gostei deste livro do Astérix. Se calhar gostei menos um bocadinho do que os anteriores. Ou então foi da altura em que o li. Não sei. Mas foi giro e engraçado na mesma, como os outros.

"Essa história apresenta uma "guerra dos sexos", causada quando aparece na aldeia uma barda altamente feminista, que acaba por colocar homens contra mulheres na aldeia. Os romanos, inclusive, se aproveitam do cavalheirismo gaulês de nunca bater em uma mulher, para criar uma legião formada apenas por mulheres, e assim derrotar os gauleses de uma vez por todas."

Segunda-feira, 19 de Março de 2012

A luz do Oriente


Autor: Jesús Sanchez Adalid
Ano: 2000
Classificação: 1/5

Este foi um livro que me foi recomendado. Emprestaram-mo e disseram que eu ia gostar. Detestei mesmo. Foi horroroso do início ao fim. Não. Minto. Gostei das últimas 10 páginas. Se o livro só tivesse essas páginas, eu era capaz de ter dado nota positiva. O meu conselho é: não leiam. Dediquem o vosso tempo a outros livros.

"A aventura de um jovem lusitano pelos mistérios do Império Romano do Séc. III da nossa era. É o princípio do fim para o Império romano. Os violentos movimentos sociais, políticos e militares atingem o seu auge, e a imensidão de deuses e cultos que caracterizam a vida religiosa dos romanos encontra-se no epicentro dessa agitação febril.
É neste cenário que encontramos Félix, um jovem lusitano. Depois do escândalo por se deixar seduzir pela própria tia, uma mulher formosa e experiente, Félix é forçado a abandonar a terra natal. Movido pelo desejo de encontrar um significado para a vida, inicia uma grande viagem que o vai levar a percorrer grande parte do Império romano.
Em Roma conhecerá a corrupção e será confortado pelos braços de uma jovem sacerdotisa. A falta de dinheiro atira--o para o exército. Dos terríveis campos de batalha à faustosa Pérsia, a sua vida intensa leva-o a conhecer os maiores filósofos e pensadores da época. E talvez, no final, a conhecer-se a si mesmo."

Domingo, 18 de Março de 2012

A Alquimia do Amor

Autor: Nicholas Sparks
Ano: 2003

Wilson e Jane são um casal de classe média alta. Os filhos, adultos, há muito deixaram o ninho materno. Tudo corria aparentemente bem até ao dia em que acontece o ponto de viragem da vida deste casal: Wilson esqueceu-se do aniversário de casamento. A partir daí, a união dos dois que visivelmente tinha caído nas malhas da rotina começa a ser posta seriamente em causa. Wilson começa então, qual herói pejado de defeitos em busca de redenção, a tentar de todas as formas que consegue ganhar a confiança e o amor da esposa de volta. 
Sobre Nicholas Sparks já tinha lido as mais variadas opiniões: que os livros são fantásticos e super românticos, que as histórias são bem contadas mas são previsíveis já que a fórmula é sempre a mesma, que os livros dele não têm ponta por onde se lhe pegue, etc. Visto que tinha alguns livros do autor na minha pilha de livros para ler deste ano, decidi pegar neste. E a minha opinião sincera é que esta obra em particular “nem é carne, nem é peixe”. Parece confuso mas passo a explicar. Em termos de enredo, é um livro interessante. Debate a problemática das relações amorosas e daquilo que é a verdadeira “assassina de relações”: a rotina (pior que essa só mesmo a traição). Quando ela se instala e os casais entram na zona de conforto, o caminho mais provável é descer até a um ponto de não-retorno fatal. São muitos os casais que enveredam por esse caminho, com o passar dos anos passam a ser dois estranhos a partilhar uma casa em que o único ponto em comum são os filhos. No que diz respeito à escrita, é um enredo fácil de seguir, com um percurso lógico e coerente. Mas neste campo, há um ponto que me desagradou. Os diálogos entre personagens estão num nível de linguagem demasiado cerimonioso. Em vários momentos comentei para mim mesma “Na vida real ninguém fala assim!”. Seria fácil para mim seguir o caminho de menor resistência e apontar o dedo à tradução mas não o vou fazer. Até porque não conheço o original. Para terminar, falo do fim da história. Completamente imprevisível, nunca me passaria pela cabeça durante a leitura tal plano tão bem arquitectado. Concluindo, esta é uma boa história que poderia ter sido melhor expressada.

Excerto:
“Mas o amor, acabei por perceber, é mais do que três palavras murmuradas antes de chegar a altura de ir para a cama. O amor alimenta-se de gestos, da devoção que pomos nas coisas que fazemos pelo outro, todos os dias.”

Domingo, 11 de Março de 2012

The Descendants


Nome em português: Os descendentes
Ano: 2011
Género: Comédia, Drama
Realização: Alexander Payne
Elenco: George Clooney (como Matt King), Shailene Woodley (como Alexandra King) e Amara Miller (Scottie King)

Fui ver este filme ao cinema há praí duas semanas. Sinceramente esperava mais do filme. Como foi tão falado e tão elogiado, esperava que fosse um filme muito bom, mas afinal desiludi-me. Havia lá uma personagem que não servia para nada. Nem sei porque é que foi posta lá. A única coisa boa que tinha o filme é que até era engraçadito e até fez-me rir (é mesmo muito raro eu rir-me nos filmes).

"A história de um homem de negócios residente no Hawai, que após o acidente de barco que coloca a sua mulher em coma, tenta pegar nas rédeas da sua família. As suas duas filhas, com quem mantinha uma relação distante, vão ajudá-lo a trilhar o caminho que tem pela frente, entretanto agravado com a descoberta de que a sua mulher mantinha uma relação extraconjugal."

Segunda-feira, 5 de Março de 2012

Nineteen Eighty-Four

Autor: George Orwell
Ano: 2000

Londres, 1984. Para onde quer que se olhasse, a figura imponente e algo temível do Big Brother parece seguir cada um com os olhos. Por todo o lado pode-se ler também o lema do Partido: "Guerra é paz / Liberdade é escravidão / Ignorância é força." É num regime onde tudo é controlado ao milímetro que vive o personagem principal, Winston Smith. Smith é um funcionário insuspeito e apagado do Ministério da Verdade que tinha como função re-escrever artigos do jornal The Times para que estes ficassem sempre em consonância com as directivas do Partido. Um Partido que defendia o Ingsoc (socialismo inglês), que idolatrava o Big Brother e repudiava Goldstein e que punia duramente crimes de pensamento. Porém, Smith começa a sentir-se sufocado com tanta repressão e apatia geral e para extravasar esses sentimentos compra um caderno e uma caneta, artigos de venda proibida. A partir do momento em que escreve nesse bloco "ABAIXO O BIG BROTHER!", Smith entra numa espiral de acontecimentos que o leva ao Ministério do Amor e ao temido Quarto 101.
Este ano senti necessidade de voltar a ler nas línguas da minha formação académica, o Inglês e o Francês. Por isso, e para começar, nada melhor do que o desafio de um clássico. Praticamente toda a gente, mesmo aqueles que nunca puseram os olhos em cima desta obra de Orwell, reconhecem a ideia que está subjacente no conceito do Big Brother. Uma entidade que controla tudo e que tem toda a gente sob vigilância permanentemente. Ao longo da leitura não pude deixar de fazer um certo paralelismo com a nossa História enquanto país. Tivemos uma figura que idolatramos (Oliveira Salazar), uma Polícia do Pensamento (a PIDE) e tivemos inclusive um Quarto 101 (o Tarrafal ou qualquer umas das outras prisões para onde eram enviados presos políticos). Mas mesmo olhando para os dias de hoje, conseguimos facilmente encontrar exemplos de coisas associadas a esta ideia de Big Brother: os sistemas de vigilância, os rigorosos controlos de seguranças implementados depois dos vários ataques terroristas, as bases de dados com informações vitais de cada cidadão partilhadas por variadíssimas instituições públicas, etc. No que toca à escrita em si, achei que poderia ter alguma dificuldade em acompanhar o enredo resultante da falta de uso do idioma em que está escrita a obra. Felizmente isso não se verificou visto que o vocabulário é bastante acessível e fluído. No entanto, existiram alguns pontos que levantaram algumas dificuldades. Um deles foi os excertos de texto escritos em Newspeak (Novilíngua), já que não estava ainda muito familiarizada com o conceito. O outro foi a torrente de informação que o autor apresentava a espaços ao leitor. Em certos momentos torna-se cansativo assimilar tudo o que é apresentado. Mas, de um modo geral, é um excelente livro que nos faz valorizar as liberdades de que por enquanto ainda gozamos.

Excerto:
"Even from the coin the eyes porsued you. On coins, on stamps, on the covers of books, on banners, on posters and on the wrapping of a cigarette packet - everywhere. Always the eyes watching you and the voice enveloping you. Asleep or awake, working or eating, indoors or out of doors, in the bath or in bed - no escape. Nothing was your own except the few cubic centimetres inside your skull."