Sexta-feira, 30 de Dezembro de 2011

O Último Papa

Autor: Luís Miguel Rocha
Ano: 2011


Sarah Monteiro é uma jornalista portuguesa que, após umas merecidas férias na terra natal, regressa a Londres e encontra no correio um envelope com uma longa lista de nomes. Entre eles figuram políticos, militares, antigos e actuais Chefes de Estado e, para surpresa dela, o seu pai. Sarah vem a descobrir que esta mesma lista que tem nas mãos corresponde a elementos de uma loja maçónica secreta, a P2, e que João Paulo I a segurava aquando da sua morte. Uma morte que tem por detrás umas das maiores conspirações alguma vez conhecidas.
Este é mais um daqueles livros que me deixou com aquilo a que podemos chamar mixed feelings. O enredo é daqueles que vai conquistando lentamente o leitor, chegando a um ponto em que o mesmo questiona o que está a ler. Existem alguns momentos na história em que a barreira entre a realidade e a ficção é mais fina que uma folha de papel. Mas o modo como esse mesmo enredo é apresentado estraga tudo. O tom que o autor usa nos momentos de narração é demasiado cerimonioso para o meu gosto e é frequente começar a andar às voltas em torno de um determinado ponto. Nos momentos de mais acção do enredo, os mesmos parecem saídos de um filme tal é a desproporção de acontecimentos (explosões, perseguições em automóvel, sessões de tortura). No início do livro foram vários os diálogos e expressões que ficaram na língua original, sem que fosse apresentada uma tradução, mas felizmente com o avançar do livro o autor parece ter "emendado a mão" e passou a traduzi-las. Concluindo, é um livro que prende mas não conquista.

Excerto:
"Quiçá. O que quero dizer é que uma decisão, num determinado momento, afecta toda uma vida, todo um percurso pessoal, todo..."
(34ª livro do Desafio Ibero-Americano 2011)

Quinta-feira, 29 de Dezembro de 2011

Message in a Bottle


Nome em português: As palavras que nunca te direi
Ano: 1999
Género: Drama, Romance
Realização: Luis Mandoki
Argumento: Nicholas Sparks (novel), Gerald Di Pego (screenplay)
Elenco: Kevin Costner (como Garret Blake), Robin Wright (como Theresa Osborne), Paul Newman (como Dodge Blake)

Já li o livro há bastantes anos, mas ainda não tinha visto o filme. Era o único filme baseado num dos livros de Nicholas Sparks que eu ainda não tinha visto. O filme é bastante fiel ao livro, excepto no final. Quer dizer, o final é praticamente o mesmo, mas tem um determinado pormenor que é diferente.

"O viúvo solitário, Garret Blake, constrói barcos para viver. Reconstruir a sua vida - isso é outro problema. Pelo menos antes de Theresa Osborne chegar à sua aldeia na Carolina do Norte. Theresa, uma recém-divorciada e investigadora do Chicago Tribune, descobre que Garret é o autor de uma mensagem que encontrou numa garrafa, numa praia de Cape Road. Uma mensagem de sonho que a emocionou profundamente como nunca o tinha sido até então.
Kevin Costner (Garret) e Robin Wright Penn (Theresa) são as estrelas que iluminam as brilhantes representações de "As Palavras Que Nunca Te Direi", uma história de amor perdido e encontrado baseado no bestseller de Nicholas Spark. "Tu escolhes - entre o passado e o futuro. Agarra-te a um deles e aguenta-te" Quem o diz é Dodge (Paul Newman), o experiente pai de Garret. O conselho toca fundo. Tal como o impacto desta bela e emocionante história de amor."

Quarta-feira, 28 de Dezembro de 2011

A Christmas Carol



Nome em português: Um conto de Natal
Ano: 2009
Género: Animação, Comédia, Drama
Realização: Robert Zemeckis
Argumento: Robert Zemeckis (screenplay), Charles Dickens (novel)
Elenco: Jim Carrey (como Scrooge), Gary OldmanColin Firth (como Fred)

Vi este filme no dia de Natal. Já conhecia a história, claro (quem é que não conhece?). E achei que todo o filme é um bocado assustador. Eu faria o mesmo filme sem esses efeitos todos, e muito mais "bonitinho".

"O avarento Ebenezer Scrooge começa a época de Natal com o seu habitual mau humor, gritando com maus modos ao seu fiel empregado e ao seu alegre e carinhoso sobrinho. Mas quando os fantasmas do Natal Passado, Presente e Futuro o levam numa viagem, reveladora de muitas verdades, que o Velho Scrooge não quer enfrentar, ele vai ter de abrir o coração para apagar anos de ruindade antes que seja tarde de mais…"

Terça-feira, 27 de Dezembro de 2011

He's Just Not That Into You


Nome em português: Ele não está assim tão interessado
Ano: 2009
Género: Comédia, Drama, Romance
Realização: Ken Kwapis
Elenco: Jennifer Aniston (como Beth), Jennifer Connelly (como Janine), Scarlett Johansson (como Anna)

Depois de ter lido o livro, quis mesmo ver o filme. Sinceramente não gostei muito. O livro centra-se muito na ideia que, se nos tratam mal, é porque os homens não estão assim tão interessados. Pelo contrário, o filme tenta que as histórias acabem bem e sejam todos muito felizes. E essa não é a ideia do livro.

"Se alguma vez já esteve sentada à frente do telefone a perguntar-se por que razão ele disse que ligava mas não liga, ou se não percebe o porquê dela não querer ir mais para a cama consigo, ou porque diabo a sua relação não avança para o nível seguinte… ele (ou ela) talvez não estejam mesmo nessa…
Baseado no popular dos argumentistas de “O Sexo e a Cidade”, Greg Behrendt e Liz Tuccillo, “Ele Não Está Assim Tão Interessado” conta a história cruzada de um grupo de vintões e trintões de Baltimore, enquanto estes navegam através das suas várias relações, desde o vazio da cena do engate até aos terrenos profundos mas escorregadios da vida marital, mas tentando sempre ler da melhor maneira os sinais que lhe são enviados pelo sexo oposto."

Segunda-feira, 26 de Dezembro de 2011

Toy Story 3

Ano: 2010
Realização: Lee Unkrich
Argumento: Michael Arndt
Vozes na versão Portuguesa: André Maia, Carlos Freixo, Carlos Macedo, José Raposo, Miguel Ângelo, Paulo B 

Toy Story é sempre aquele mimo de ser ver. Um filme que junta a Barbie e o Ken só pode ser um prato :)

"Os criadores dos filmes "Toy Story" reabrem a caixa de brinquedos e trazem de volta aos espectadores o mundo encantador de Woody, Buzz e do gangue de personagens favoritas em Toy Story 3."

Trailer:

Sábado, 24 de Dezembro de 2011

Ele não está assim tão interessado


Autores: Liz Tuccillo, Greg Behrendt
Ano: 2005
Classificação: 4/5

Gostei do livro. Sei que existe o filme, e estou super curiosa de o ver. O livro é pequeno e muito interessante. Li-o em três dias (e teria conseguido lê-lo apenas num dia). Fala sobre as relações entre casais e como muitas das desculpas que as pessoas dão, querem apenas dizer que não estão assim muito interessados em nós. Fez-me pensar em todos os namoros que tive.

"Dirigido ao público feminino, sobretudo às mulheres que continuam a arranjar mil e uma desculpas para o facto de ele não telefonar, não aparecer, não se declarar, etc., etc., etc., este livro revela-lhe o verdadeiro motivo de todos esses «esquecimentos»: muito simplesmente, ele não está interessado em si! Greg Behrendt e Liz Tuccillo, dois dos guionistas da aclamada série "O Sexo e a Cidade", revelam, num tom satírico e frontal, todas as justificações encontradas pelas mulheres para não enfrentarem o problema e manterem relacionamentos afectivos decadentes ou mesmo humilhantes. Entre perguntas e respostas, os autores vão-lhe dando sugestões e conselhos para não voltar a cair na cantiga dele, sintetizando em pequenos quadros quais os argumentos dados pelos homens para não telefonarem ou não avançarem na relação, e o que eles realmente significam. No final de cada capítulo é-lhe apresentado um resumo daquilo que deverá ter aprendido depois de ler o capítulo em questão e alguns exercícios para saber se está ou não a fazer progressos. E porque há sempre alguém que acabará por a amar, aceite um conselho: livre-se dele e seja feliz!"

Sexta-feira, 23 de Dezembro de 2011

Fortaleza Digital


Autor: Dan Brown
Ano: 2006
Classificação: 3/5

Este foi um livro emprestado. Não tem nada a ver com o tipo de livros que eu gosto de ler. Confesso que achei-o bastante assustador. Não o podia ler à noite porque a história me metia medo. Não estou a exagerar, eu sou demasiado sensível. O livro é enorme (tem 448 páginas) e demorei mais de dois meses a lê-lo porque não me cativou quase nada. Aliás, só no final é que comecei a achar mais interessante e conseguiu prender-me. Apesar de tudo isto, atribuí a classificação de três estrelas (em cinco) por causa do final. O livro tem imensos capítulos (mais de 100) e alguns deles são extremamente curtos (só de uma página), o que prejudica um pouco o livro, já que há muitas quebras.

"Quando o ultra-secreto e invencível descriptador da NSA, o Crivo, se depara com uma mensagem indecifrável criada por um «anjo caído» da própria agência, o director de operações recorre à brilhante criptógrafa Susan Fletcher e ao seu noivo, um professor de Literatura, para o ajudarem a desvendar o mistério.
Qual será a natureza do terrível código que tomou a NSA como refém? E terá David Becker êxito na sua demanda por um misterioso anel?
Apanhada numa vertiginosa rede de secretismos e mentiras, Susan tenta desesperadamente salvar a agência em que acredita e, mais tarde, a própria vida e a do homem que ama.
Mas será essa a resposta para a segurança universal?
Chegando o momento da verdade , «quem guardará os guardas»?"

Quinta-feira, 22 de Dezembro de 2011

The Duchess


Nome em português: A duquesa
Ano: 2008
Género: Biografia, Drama, História
Realização: Saul Dibb
Elenco: Keira Knightley (como Georgiana), Ralph Fiennes (como The Duke), Dominic Cooper (como Charles Grey)

Este filme não estava na lista dos filmes que eu queria ver, mas adorei vê-lo. Muito bom mesmo! É baseado numa história real.
Fez-me pensar sobre os casamentos da altura, muitos deles de farsa, em que a mulher aguentava tudo, incluindo traições, e onde não se valorizava o verdadeiro amor. Também reflecti acerca do erro de se pensar que quem decide o sexo do bebé que vai nascer é o corpo da mulher. Hoje em dia, sabe-se que perfeitamente que é o homem. E o curioso disso, é que ainda há umas décadas se mantinha esse pensamento errado. E, por fim, fez-me pensar sobre o que as pessoas são capazes de fazer pelos seus filhos, para poderem vê-los e estar com eles, que inclui abdicar de imensas coisas que não posso dizer.

"Enquanto a sua beleza e carisma lhe trouxeram êxito, os seus gostos extravagantes e apetite por jogos e amor tornaram-na infame. Georgiana Spencer casou jovem com o distante e mais velho Duque de Devonshire, íntimo de ministros e príncipes, e tornou-se um ícone de moda, uma mãe devota, uma astuta figura política e a mulher mais adorada pelo povo. Mas no centro da sua história está uma busca desesperada por amor, do caso condenado à partida com Charles Grey ao complexo ménage à trois com o seu marido e a sua melhor amiga, Lady Bess Foster."



Quarta-feira, 21 de Dezembro de 2011

Juno


Ano: 2007
Género: Comédia, Drama, Romance
Realização: Jason Reitman
Argumento: Diablo Cody
Elenco: Ellen Page (como Juno MacGuff), Michael Cera (como Paulie Bleeker) and Jennifer Garner (como Vanessa Loring)

Este filme estreou quando eu morava em Lisboa. Lembro-me de ver o poster deste filme e de me ter chamado à atenção. Desde essa altura que fiquei com vontade de ver o filme. A personagem principal é a Juno que, como se vê na imagem, fica grávida. Achei interessante ela levar a gravidez dela muito na "desportiva". Ela era uma adolescente! Eu acho que, se ficasse grávida quando era adolescente, ficaria em pânico. E depois a Juno decide dar o filho para um casal que não podia ter filhos, como se pode ler na sinopse do filme. É uma atitude muito adulta. E o filme, para ser completo, tem de ter também uma lição de vida. Fez-me pensar sobre os casamentos, sobre os casais que não são felizes para sempre, como deveria ser.

"Juno é uma adolescente segura e descontraída com resposta para tudo e para todos. Juno não tem um problema de atitude; tem atitude a mais. Para sobreviver a mais uma tarde de aborrecimento, Juno decide ter sexo com o seu inseguro colega de escola Bleeker. Confrontada com uma gravidez indesejada, Juno e a sua melhor amiga, traçam um plano para encontrar os pais perfeitos para o bebé que ainda vai nascer. Mas à medida que a barriga vai crescendo e que Juno vai convivendo com os futuros pais da criança, começa a perceber que, afinal, não tem resposta para tudo… e que a vida ainda lhe pode reservar algumas surpresas."

Terça-feira, 20 de Dezembro de 2011

Let It Snow - Jamie Cullum



Estão a faltar aqui umas músicas de Natal, apesar de elas se ouvirem para onde quer que uma pessoa vá (rua, shoppings, etc.). Sou fã do Jamie Cullum, gosto muito desta versão.

Segunda-feira, 19 de Dezembro de 2011

Just Married

Título em Português: Casados de Fresco
Ano: 2003
Realização: Shawn Levy
Argumento: Sam Harper 
Elenco: Ashton Kutcher (Tom), Brittany Murphy (Sarah), Christian Kane (Peter Prentiss), David Moscow (Kyle)

A típica comédia romântica de Domingo à tarde. O filme tem várias cenas caricatas que resultam em boas gargalhadas. Gostei.

"Sarah e Tom decidem casar, contra a vontade dos pais e amigos de Sarah, e vão fazer uma viagem pela Europa e assim comemorar a Lua-de-Mel. Em princípio tudo corre maravilhosamente bem até que os pais de Sarah, numa tentativa de boicote, convencem o ex-namorado de Sarah a ir atrás dela..."

Trailer:

Terça-feira, 13 de Dezembro de 2011

O Supremo Interdito

Autor: Urbano Tavares Rodrigues
Ano: 2000

A infância de Alcino Romeu Carrasco foi marcada pela humilhação, pelo autoritarismo do pai e pela passagem pelo seminário, de onde tem memórias que o assaltam em pesadelos. Frequentou o curso de Medicina (que não chegou a concluir), foi agente da PIDE e vendedor na área da informática. No entanto, todo o seu passado transforma-o num homem indiferente aos outros, uma pessoa vazia e fria, incapaz de sentimentos profundos e verdadeiros. Alcino começa então a percorrer as ruas sombrias de Lisboa e torna-se um "serial killer" que espalha o pânico ao atacar prostitutas, sempre de um modo bárbaro e cruel.
O primeiro contacto que tive com a obra de Urbano Tavares Rodrigues foi no primeiro ano da faculdade. Ao encontrar este livro no expositor da Europa-América na Feira do Livro da Póvoa de Varzim, decidi revisitar a sua escrita. Este é um livro perturbador, não só pelo tema que aborda mas também pelo modo como o mesmo é apresentado. Apesar da escrita muito fluente e harmoniosa do autor, toda a narrativa tem uma carga emocional muito carregada. Uma escrita cruel, dura, que procura perceber os meandros da consciência de um assassino. É também uma escrita detalhada, que leva até ao leitor os pequenos pormenores de paisagens e lugares da cidade de Lisboa. Existem, no entanto, pequenos apontamentos ligados directamente ao Português falado no Brasil (palavras como açougueiro ou o uso do gerúndio na construção das frases) que apesar de não comprometerem a fluência completa da leitura, acabam por destoar um pouco tendo em conta a generalidade do texto. Um livro que agradará aos fãs de obras mais ligadas a este género de thriller psicológico.

Excerto:
"Colecciono agora corpos mortos, exactamente: cadáveres. E, de mim para mim, não sei rigorosamente se o faço por gosto, por profundo impulso vingador, irracional, ou já por hábito arraigado de coleccionador."
(33º livro do Desafio Ibero-Americano 2011)

Domingo, 11 de Dezembro de 2011

Cars

Título em Português: Carros
Ano: 2006
Realizador: John Lasseter
Argumento: John Lasseter 
Vozes na versão portuguesa: Pedro Granger (Faísca McQueen), Vera Kolodzig (Sally Carrera), José Raposo (Mate)

Finalmente consegui ver o filme completo! Acho graça ao Mate. E agora venha o Cars 2 :)

"Animação da Disney, produzida pelos estúdios Pixar sobre o mundo dos carros. Velhos ou novos, velozes ou furiosos, lentos ou rápidos, os carros são os protagonistas desta animação."
Trailer:

Quinta-feira, 8 de Dezembro de 2011

A Pé Pelo Paraíso

Autor: Luís Carmelo
Ano: 2008

A Pé Pelo Paraíso reúne 6 contos publicados em diversas revistas ou suplementos de jornais. São eles A memória de Laurentino G.Z., O amor puro, O crime imaculado, O olho de javali, A nuvem gigante e O cometa. Todos eles partilham denominadores comuns, o tema do amor e a da fragilidade humana expressa por o relato de um acidente, pelo degradar das condições de vida de alguém ou mesmo a tentativa de analisar as emoções de alguém através de uma máquina.
Mais um livro comprado sem qualquer referência, o verdadeiro tiro no escuro. No final da leitura do mesmo, posso dizer que foi mais um daqueles livros que, como diz a expressão popular, "nem aquece nem arrefece". Tem como ponto positivo a escrita do autor, uma escrita elegante, muito poética e focada nos detalhes. O tipo de escrita que usa como alicerce descrições meticulosas de maneira a transportar o leitor para a narrativa. Mas tirando isso, não houve aquele elemento surpresa, aquele "click" que me fizesse ficar agarrada aos vários contos de maneira a tecer rasgados elogios. Todos os capítulos dos 6 contos são curtos, o que faz com que as páginas fluam rapidamente mas neste caso as páginas fluíram sem qualquer emoção da minha parte. Por isso, esta obra tornou-se, simplesmente, em mais uma lida.

Excerto:
"Se se reparar bem, os problemas começam, quando se acaba um curso. Não é só uma questão de emprego e de ocupação, mas é, sobretudo, uma questão de motivação."
(32º livro do Desafio Ibero-Americano 2011)

Terça-feira, 6 de Dezembro de 2011

De Profundis, Valsa Lenta

Autor: José Cardoso Pires
Ano: 2001

Em 1995, José Cardoso Pires sofre um Acidente Vascular Cerebral (AVC) que lhe afecta a área responsável pelas faculdades da fala, da escrita e da leitura. Os objectos banais passaram a ser elementos novos na sua vida, as pessoas deixaram de estar associadas a um nome, a memória pura e simplesmente era uma miragem assustadora. Até que numa manhã, na enfermaria do internamento de Neurologia, dá-se uma epifania e tudo que até então era sombra e desconhecido volta a ser de novo real. O Outro Eu desaparece para dar lugar definitivamente ao Eu, a Cardoso Pires na posse de todas as suas faculdades. Na carta-prefácio, o Dr. João Lobo Antunes explica que o facto de a zona cerebral afectada estar mais musculada que a do comum dos cidadãos terá sido a peça chave para o feliz desfecho da doença do escritor.
Por ser diferente daquilo a que Cardoso Pires habituou os seus leitores, já há algum tempo que queria ler este livro. Escrito num tom auto-biográfico, este é o relato de uma doença mas sem cair no exagero de ser um tratado científico. Nestas páginas está o seu ponto de vista como doente, de um homem que de um dia para o outro perde a memória das coisas simples da vida e que luta para recuperar esse pedaço importantíssimo da vida de cada um. E por não ser um tratado científico, as páginas fluem ao sabor da leitura, terminando-se a mesma num sopro. No entanto, esse sopro deixa as suas marcas, transmite a quem lê a angústia de quem se viu privado de uma fatia do seu ser. No fundo, um livro diferente mas interessante.

Excerto:
"Sem memória esvai-se o presente que simultaneamente já é passado morto. Perde-se a vida anterior. E a interior, bem entendido, porque sem referências do passado morrem os afectos e os laços sentimentais. E a noção do tempo que relaciona as imagens do passado e que lhes dá luz e o tom que as datam e as tornam significantes, também isso. Verdade, também isso se perde porque a memória, aprendi por mim, é indispensável para que o tempo não possa ser medido como sentido."
(31º livro do Desafio Ibero-Americano 2011)

Domingo, 4 de Dezembro de 2011

A Ciganita

Autor: Miguel de Cervantes
Ano: 2008


Preciosa é uma jovem cigana cuja beleza e graciosidade dos seus 15 anos em nada faz antever a maturidade e a inteligência dos seus pensamentos. Ao chegar a Madrid com os restantes membros do seu acampamentos, é abordada por um jovem cavaleiro de famílias nobres que, enamorado dos encantos da jovem, a pede em casamento. Mas Preciosa, do alto da sua precoce maturidade, pede-lhe que se faça cigano e espere 2 anos, pois só assim casaria com ele.
Conhecido maioritariamente pelo livro D. Quixote, Cervantes mostra nesta novela uma outra faceta, a de contista. É um livro pequeno mas interessante, com uma cadência de escrita rápida graças à ausência de capítulos. No entanto, o nível de erudição de grande parte do discurso pode ser um entrave ao leitores que não estejam tão habituados ao mesmo. Existem também partes do texto que se lêem ainda com mais rapidez devido à presença abundante dos poemas que Preciosa cantava. Já o final é completamente inesperado, dando um pouco mais de emoção a todo o enredo. Este é, no fundo, um livro de onde se retira uma lição: todas as pessoas são importantes e especiais, independentemente da sua origem ou classe social.
 
Excerto:
" - Querer-me-ão para boba - voltou ela - e como não saberei sê-lo, ficará tudo perdido. Se me quisessem para ajuizada, ainda me levariam, mas nalguns palácio medram mais os bobos que os sensatos. Sinto-me muito bem como cigana e pobre e que a sorte me corra como Deus quiser."
(30º livro do Desafio Ibero-Americano 2011)

Sábado, 3 de Dezembro de 2011

A Ninfa Inconstante

Autor: Guillermo Cabrera Infante
Ano: 2010

Estela é uma jovem de 16 anos cuja inocência não passa de uma mera aparência. É por essa aparente inocência que se apaixona o narrador desta obra, um homem mais velho, crítico de cinema e de tal modo insatisfeito com o seu casamento que a esposa há muito deixou de espera-lo acordada ao final do dia. Pelos fios da memória do protagonista, surgem histórias de paixões e desilusões, de traições e de enganos. Mas é também uma obra sobre Havana. As suas ruas, as pessoas, os edifícios, os cafés, a música. Como se a cidade deixasse de ser um mero pano de fundo e passasse a ser, também ela, parte fundamental das memórias do protagonista.
Para mim, Cabrera Infante foi mais uma estreia. Na verdade, uma conturbada mas interessante estreia. Este autor não tem um estilo de escrita fácil. Ao longo das linhas vão aparecendo todo o tipo de referências culturais em catadupa, desde cinema, passando pela música, pela filosofia ou pela própria literatura. Infante constrói, assim, em torno de uma história aparentemente simples um intrincado puzzle onde nada parece fazer sentido mas com o evoluir da história, esse pequenos elementos parecem fazer sentido. Como os boleros que Estela vai cantando ou as muitas citações que o protagonista vai fazendo em momentos chave. Claro que em alguns momentos, senti-me como Estela quando repetia vezes sem conta "Esmagas-me com a tua cultura". No entanto, todas as descrições presentes no livro transportam o leitor para uma Havana não muito distante no tempo (1957) graças à riqueza nos detalhes. Outro dos elementos que me agradou também neste livro foi o sentido de humor bastante apurado e ao mesmo tempo subtil do seu autor. Foram várias as tiradas ao longo das páginas que me fizeram sorrir. Uma nota negativa que tenho a fazer sobre esta edição em particular da 11x17 é sobre a formatação do texto em si. Em praticamente todas as páginas existem várias palavras onde foram suprimidos os espaços entre elas. Concluindo, Cabrera Infante é um autor a que quero, sem dúvida, voltar em breve.

Excerto:
"Há sempre um conflito entre o amor e a vida. Chama-se a isso romantismo, que é, no fim de contas, mais uma posição perante a vida do que diante a arte. Se se diz e se repete: "Sou um romântico incurável", está a admitir-se uma doença. Isto é, um estado crónico, uma espécie de gripe do espírito, e a única coisa que pode curar essa doença é outra doença incurável. O medo, por exemplo."
(29º livro do Desafio Ibero-Americano 2011)

Sexta-feira, 2 de Dezembro de 2011

Perto do Coração Selvagem

Autor: Clarice Lispector
Ano: 2000


Naquele que foi o pontapé de saída na carreira literária de Clarice Lispector, esta conta-nos a história de Joana. O seu passado e o seu presente, a sua vida da meninice até à idade adulta e todo um manancial de personagens que povoam ou povoaram a sua existência. O pai que morre quando Joana era ainda uma criança e que a incentivava a ser criança; a tia que fica chocada perante as tropelias da sobrinha; o tio fazendeiro sempre meigo com a menina mas que fazia "ouvidos moucos" às reclamações da esposa; o professor confidente e orientador; Otávio, o homem com quem Joana casa; Lígia, antiga noiva de Otávio de quem se torna amante e finalmente o homem sem nome, sustentado pela mulher, participante silenciosa do romance clandestino e sem compromisso dele com Joana.
Quando Clarice publicou este livro no Brasil, aos 19 anos de idade, a sua escrita revolucionou aquilo que era a norma da altura. O seu estilo tão próprio, onde mistura planos de narrativa tão diferentes como presente e passado, pensamentos subjectivos e história objectiva, um estilo que larga um fio condutor de pensamento para o retomar alguns parágrafos ou páginas mais à frente, quebrou regras e impressionou a critica. Outro dos motivos porque Clarice foi tão revolucionária, e esse foi o especial motivo que condicionou a minha leitura, foi a temática de carácter existencialista. Já o disse em outras opiniões, não sou grande fã dessa corrente já que ela exige uma pré-disposição mental para a aceitar sem se deixar afectar. Mas tirando isso, é um enredo que não é de todo previsível já que as constantes mudanças no plano da narrativa deixam o leitor curioso para saber que rumo vai seguir determinada personagem.

Excerto:
"Releu a anotações sobre a leitura anterior. - O cientista puro deixa de crer no que gosta, mas não pode impedir-se de gostar no que crê. A necessidade de gostar: marca do homem."
(28º livro do Desafio Ibero-Americano 2011)