Quarta-feira, 23 de Novembro de 2011

Lisboa em Camisa

Autor: Gervásio Lobato
Ano: 1988


Lisboa em Camisa conta o dia-a-dia de duas famílias burguesas que habitam o 4º andar de um certo edifício da Rua dos Fanqueiros. De um lado moram os Antunes, vindos do Algarve, a quem nascera o primeiro herdeiro já na cidade. Do outro moram os Torres, encabeçados pelo Conselheiro Torres, um chefe de repartição, seguidor fiel de Fontes Pereira de Mello, o "Bismack português".
Depois de um livro tão mentalmente exigente como foi o anterior, optei por uma leitura mais leve e divertida. Gervásio Lobato foi um conhecido escritor de finais do séc. XIX que, na sua época, trouxe de novo a lume um género literário sobre o qual Gil Vicente foi prolixo: a farsa. A título de curiosidade, este escritor tem como membro da sua árvore genealógica o humorista Nuno Markl. Mas passando ao livro propriamente dito, foi uma divertida e agradável surpresa. A critica social e de costumes roça o estilo de Eça de Queirós, apontando o dedo a uma classe burguesa que prefere parecer algo que não consegue ser. A própria escrita do autor segue a escola realista de Eça, estando povoada de elementos do quotidiano como a descrição das ruas, dos trajes ou dos comportamentos. Mas o que dá a graça essencial ao livro são as peripécias que aparecem em catadupa ao longo das páginas. Cada capítulo apresenta-nos uma diferente, pelo que cheguei ao ponto de pensar para mim mesma "Que mais é que pode acontecer a esta gente?". Dou apenas alguns exemplos para terem ideia do que falo: as pedras árabes de Justino Antunes que em vez de irem para um museu serviram para fazer uma escada; durante um baptizado, o Conselheiro Torres dá dinheiro à avó da criança, julgando-a ser a parteira; durante um almoço, uma travessa de vitela assada anda num "entra-e-sai" da sala de jantar para a cozinha... Os exemplos são muitos, variados e todos igualmente caricatos. Para dar umas belas gargalhadas, este é o livro ideal.

Excerto:
"- O que está o senhor aí a berrar por coquetes... - desse ela desabrida, muito malcriada - eu não me posso fazer em coquetes... com meio arrate de carne não se pode fazer mais... não quer gastar dinheiro, e quer dar jantares... eu cá milagres não ser fazer... Ora esta!"
(27º livro do Desafio Ibero-Americano 2011)

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