Autor: Eça de Queirós
Ano: 2009
Tal como o título indica, neste livro existe o contraponto entre duas realidades distintas. De um lado, a Cidade. A modernidade, a civilização, o ócio e as festas provocam em Jacinto sentimentos como a melancolia, o aborrecimento, o cansaço. Do outro lado, a Serra. Jacinto no reencontro com a velha casa da família, em Tormes, renova-se, numa atitude de encantamento. Integrando-se na vida produtiva do campo, Jacinto aplica os seus conhecimentos técnicos e científicos à situação concreta de Tormes, planeando a construção de queijarias ou a criação de extensos prados. Sem romper totalmente com os valores da civilização, Jacinto adapta o que pode ao campo, dando também o seu contributo para a modernização da serra, ao trazer o telefone.
Este é um registo diferente daquele que Eça sempre adoptou. O escritor poveiro abandona a critica mordaz à sociedade para se voltar para a Natureza. As descrições feitas das serras na zona do Douro são de uma beleza incrível. Um livro lindíssimo, com Eça no seu melhor, apesar da obra ter sido escrita a um ano do escritor partir deste mundo. Altamente recomendável para quem gosta de excelente literatura.
Excerto:
"Mas o que a Cidade mais deteriora no Homem é a Inteligência, porque ou lha arregimenta dentro da banalidade ou lha empurra para a extravagância. (...) Todos, intelectualmente, são carneiros, trilhando o mesmo trilho, balando o mesmo balido, com o focinho pendido para a poeira onde pisam, em fila, as pegadas pisadas; - e alguns são macacos, saltando no topo de mastros vistosos, com esgares e cabriolas. Assim, meu Jacinto, na Cidade, nesta criação anti-natural onde o solo é de pau e feltro e alcatrão, e o carvão tapa o céu, e a gente vive acamada nos prédio como o paninho nas lojas, e a claridade vem pelos canos, e as mentiras se murmuram através de arames - o homem aparece como uma criatura anti-humana, sem beleza, sem força, sem liberdade, sem riso, sem sentimento, e trazendo para si um espírito que é passivo como um escravo ou imprudente como um histrião... E aqui tem o belo Jacinto o que é a bela Cidade!"
(3º livro do Desafio Lusofonia 2010)